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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

DELÍRIOS II

Tudo aqui tem direção.
Todos os sorrisos, todas as tentações,
todos os murmúrios e gemidos.
Se tem amor, tem gemidos...
Se tem dor, tem murmúrios...
Toda direção tem dois sentidos.
Meu coração, como um barco, corre e pulsa
sob pontes, sob jardins de safenas em flor...
Meu coração, como um carro,
corre e pulsa sobre
a malha de veias, viadutos e coronárias,
entre os ventrículos, entre o norte e o sul.
E esta cidade que eu adoro, tem pontos fracos,
pontos nobres e ponto G...
Alcanço tuas entranhas quando fujo
e desfaleço do presente.
Saio em busca do passado,
mas querendo encontrar só o futuro.
Meu dedo dói.
Minha língua lateja.
Meu prazer é o teu prazer.
Só quero o teu conforto.
Só quero o teu gozo.
Teu barulho ainda está em meus ouvidos.
Tuas unhas ainda arranham minhas costas.
Minha cidade linda!
Conheço todas as tuas esquinas,
me perco em teus túneis,
me disfarço e sumo entre a tua multidão.
Minha cidade, minha única cidade,
minha cidade-mulher com ladeiras,
morros e montes de Vênus...

Nenhuma vez eu tive medo.
Meu perigo sempre foi eu mesmo.
Posso ser feliz, mas a solidão
é minha mais fiel companheira.
Meu mundo tem a beleza natural
da minha cidade.
Minha paixão é essa cidade.
Minha ilusão é essa cidade.
Minha mulher é essa cidade.
Na cidade onde os perigos e tragédias se multiplicam,
exitem as belezas e encantos também.
Uma cidade grande mas solitária.
Uma alegria medrosa.
Um lugar onde não temos sonhos, mas pesadelos.
Minha cidade, minha solidão é você.
Minha mulher é você.